Gentrificação no Rio: como bairros populares estão sendo transformados e quem paga o preço
Há dez anos, Seu Antônio, 68 anos, pagava R$ 600 de aluguel por um apartamento de dois quartos em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Hoje, o mesmo tipo de imóvel no bairro custa entre R$ 3.500 e R$ 5.000 por mês. Ele foi embora em 2022, para um apartamento menor em Realengo, na Zona Oeste. "Santa Teresa virou coisa de rico. A gente que morava lá de verdade foi embora", diz.
A história de Seu Antônio se repete em diferentes versões em bairros do Rio de Janeiro que passaram por processos de valorização imobiliária acelerada nos últimos anos. Santa Teresa, Lapa, Gamboa — bairros que eram populares e acessíveis estão se tornando destinos turísticos e residenciais para uma classe média e alta que busca "autenticidade" e proximidade com a cultura carioca.
O que é gentrificação e por que importa
Gentrificação é o processo pelo qual bairros de baixa renda são transformados pela chegada de moradores e negócios de maior poder aquisitivo, resultando na expulsão dos moradores originais. O fenômeno não é exclusivo do Rio — acontece em São Paulo, Recife, Fortaleza e em cidades menores como Florianópolis e Curitiba — mas no Rio tem características particulares ligadas ao turismo e à especulação imobiliária.
"Eu cresci nesse bairro. Minha mãe cresceu aqui. Minha avó veio da Bahia e veio morar aqui. Agora estão me dizendo que eu não posso mais pagar para morar onde sempre morei. Isso é justo?"
O papel do poder público
A Prefeitura do Rio tem instrumentos legais para mitigar a gentrificação — como o IPTU progressivo, as Zonas Especiais de Interesse Social e programas de aluguel social — mas o uso desses instrumentos tem sido limitado. Especialistas em direito urbanístico ouvidos pela Correio Urbano apontam que a prefeitura, na prática, tem favorecido a valorização imobiliária em detrimento da permanência dos moradores originais.